segunda-feira, setembro 28, 2009

O barco Moliceiro

Os barcos moliceiros são um dos emblemas da Ria de Aveiro.
Em forma de meia-lua têm mastro e leme de grandes dimensões.
A construção dos barcos moliceiros é uma indústria tradicional que apenas existe nesta região, especialmente nos concelhos da Murtosa e Ílhavo. Trata-se de uma profissão que passa de pais para filhos.
O comprimento total é cerca de 15 metros, a largura de boca 2,50 metros.


O barco Moliceiro


Nada se esquece no interior deste pequeno barco. O castelo da proa é coberto e fechado com porta e chave, serve de câmara de tripulantes e paiol de mantimentos. A cobrir as duas primeiras cavernas de água, há um estrado ao mesmo nível do piso da câmara, que tem a função de lareira e onde os tripulantes preparam e comem as refeições. O castelo da ré é preenchido por um espaço, em que se guarda o barril da água, as forcadas e as tamancas e é coberto por uma tampa móvel, que serve de assento ao arrais.


O barco Moliceiro


O seu pequeno calado permite-lhes mover-se nos canais menos fundos, sendo, nessas circunstâncias, movido à vara. Navega em pouca altura de água. O castelo da proa é coberto. Como meios de propulsão usa uma vela, a vara e a sirga.
A vela é geralmente de lona, com a superfície de 24 metros quadrados, içada num mastro de altura aproximada de 8 metros. É assim bastante alto para poder colher vento, em todas as circunstâncias, que por vezes sopra. O meio de propulsão da “vara” é de 4 a 6 metros de comprimento, que firmam no fundo dos canais e empurram a peito, em repetidos percursos, desde a proa até próximo da ré. A “sirga” é um cabo de sisal, ou nylon que se utiliza na passagem dos canais mais estreitos ou junto às margens, sempre que o barco navega contra a corrente ou contra o vento. Uma das extremidades da sirga é amarrada aos golfiões e a outra tem-na o tripulante, que segue a pé pela margem, puxando o barco.
Destinavam-se à colheita e transporte de moliço (vegetação da Ria, utilizada para fertilizar os campos agrícolas), sendo hoje uma atracção turística. Moliço é o nome vulgar para designar, sem distinção de espécies, as plantas que constituem a vegetação submersa da ria, designando-se por apanha do moliço a actividade que se desenrola em seu torno. É de salientar que o termo moliceiro não se refere apenas à embarcação, designando também o seu utilizador.


O barco Moliceiro


Uma das características destas embarcações é a sua riqueza em termos decorativos, quer na proa quer na popa, sendo profusamente utilizados os elementos marinhos e rurais, assim como cenas românticas ou religiosas, sendo ou não tratadas de forma humorística. Os temas vão do popular ao satírico, do religioso ao brejeiro...


O barco Moliceiro



O barco Moliceiro


De igual modo, é característica a presença de uma legenda em cada moliceiro, dizeres de carácter único e cheios de graça, tendo como limite apenas a imaginação do seu autor.


O barco Moliceiro

quinta-feira, setembro 03, 2009

O Sal de Aveiro

Ao observar a imensa planície de água da Ria de Aveiro sobressai o caprichoso ladrilhado composto pelas marinhas de sal, assim como os seus albinos montes.


Marinhas de Sal de Aveiro


Mas esta paisagem deslumbrante resulta do esforço heróico do marnoto aveirense.


Marnoto na amanha da marinhas de sal


A região de Aveiro não tem as de condições climatéricas adequadas a uma fácil e regular evaporação. Por isso o marnoto tem de multiplicar os seus esforços para suprir as deficiências climáticas.
Se é certo que o Sol e o Vento são os grandes geradores do Sal, provocando a evaporação da água salgada enclausurada em recipientes expostos à sua acção no Salgado de Aveiro, também é certo que o sol de Aveiro não é tão forte como o das terras do sul e muitas vezes encontra-se coberto por um manto de nuvens, tendo por isso de ser o marnoto o sublime escultor dos finos cristais.
O factor humano é por isso um elemento primordial que actua na exploração salineira de Aveiro.


marinhas de sal


E as normais chuvas de verão e até o nosso rio Vouga, também não ajudam nada, antes pelo contrário, pois provocam a mistura de água doce nas águas vindas do Mar.
Este trabalho para além de árduo é sazonal, pelo que o marnoto terá de arrancar em quatro ou cinco meses de labuta quotidiana e permanente o pão que há-de comer durante um ano inteiro.
É o engenho e arte do marnoto, que se inicia a preparação da marinha para a gestação do sal, passando pela recolha da água nos canais vizinhos, sua engorda salineira, e toda aquela teia delicada, que nascem e crescem daquelas águas os delicados cristais.
O sal de Aveiro tem os seus pergaminhos, e ostenta uma linhagem que o distingue e o torna preferido devido à delicadeza dos seus cristais, que são mansamente rendidos na terna preocupação de os trazer para a luz do dia sãos e escorreitos. Este pormenor da natalidade e da vivência do sal de Aveiro, intercalado com os épicos contratempos de drama e de glória, põe em evidência toda a grandiosa epopeia do trabalho do marnoto de Aveiro e o singular merecimento do nosso sal.


marinhas de sal


A faina salineira de Aveiro corre o risco de se perder, se não for compreendida, nem amparada a sua índole muito característica e que outra não pode ser no caprichoso enquadramento climático desta região …a Cidade e a sua laguna seriam amputadas da nota característica de uma panorâmica encantadora.